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A vez das bicicletas em Goiânia
João Camargo Neto - Tribuna do Planalto - Maio/2008
Maioria dos pré-candidatos a Prefeitura de Goiânia aponta o trânsito como um problema. Ciclovias poderiam ajudar

Os problemas no trânsito e no transporte coletivo de Goiânia têm sido a grande aposta da oposição para contrapor as ações do prefeito Iris Rezende, até agora favorito nas pesquisas eleitorais. Pensar numa Goiânia moderna, tecnológica e ambientalmente correta tem se tornado um discurso recorrente dos atuais pré-candidatos. Nesse contexto, a falta de ciclovias na Capital, cai como uma luva na discussão do que a cidade quer para o futuro, afinal, a bicicleta é um dos ideais mais modernos de mobilidade urbana no mundo.
O vereador Maurício Beraldo (PSDB) estuda apresentar uma emenda ao orçamento do município para a construção do sistema cicloviário de Goiânia em 2009. Conforme a Tribuna do Planalto mostrou na última edição, a Lei 169, de autoria do parlamentar, foi sancionada em março de 2007. Até então, nenhum dos 140 quilômetros projetados pela Secretaria de Planejamento do Município (Seplam) saiu do papel.
Entusiasta do projeto, a deputada federal Raquel Teixeira (PSDB), pré-candidata à prefeitura de Goiânia, reuniu material didático no Ministério das Cidades e encaminhou a Beraldo. Ela acentua que não adianta um sistema cicloviário que não contemple a interligação com o transporte coletivo. A Lei 169 abarca a integração dos 'bicicleteiros' com os terminais de ônibus, onde devem ser construídos bicicletários - estacionamentos para o veículo ecologicamente correto.
Ela cita como exemplo "mais organizado de ciclovias" a capital francesa. Paris tem um sistema público de bicicletas. Qualquer pessoa munida de um cartão específico pode adquirir uma em um dos vários pontos na cidade e devolvê-la em outro local, que não precisa ser o de origem.
Raquel lembra que Goiânia já foi considerada a capital brasileira das bicicletas. "Meu pai, que era médico, saía para atender usando uma como meio de transporte", rememora. Como os especialistas prevêem, ela afirma que o trânsito de Goiânia, que recebe cerca de 2 mil novos veículos por mês, vai ficar insustentável. "Resolveremos este problema somente com medidas ousadas e inovadoras", complementa.
A vereadora Marina Sant'Anna (PT), também prefeitável, aponta que ciclovia não é meio de transporte apenas de "bacana, que anda em bicicleta importada, curtindo um som no seu MP3". Para ela, a via é aplicável também para o trabalhador que tem uma "magrela" antiga. "Os 'ecochatos' já anunciavam no passado o que está acontecendo hoje", afirma a petista. Ele defende o uso do veículo de duas rodas por não ser poluente, além dos benefícios relacionados ao desafogamento do trânsito. "O ciclo atual está esgotado."
Pensando em outro modelo de cidade, ela aposta na educação permanente de motoristas e estudantes como forma de "civilizar" portadores de veículos automotores e de bicicletas.
"Todos precisam se portar de forma equilibrada na rua, para não sustentar a 'cadeia alimentar', onde os veículos maiores 'engolem' os menores", aponta.
Ela sugere, como meio de ganhar mais adeptos à proposta, mobilizar a sociedade organizada em torno de "ciclo-rotas". A idéia seria estabelecer trechos, como a Avenida 136, por exemplo, para o trânsito constante de bicicletas, de forma a conscientizar população e usuários da viabilidade do veículo. "Temos de reconhecê-la como meio de transporte".
Marina critica a atual política municipal de trânsito que, segundo ela, não "prestigia o transporte coletivo e não respeita pequenos veículos". "Não é preciso gastar muito dinheiro para esse tipo de medida", acredita a vereadora. Ela cita como exemplo negativo a proibição do trânsito de bicicletas no Viaduto da Praça Latif Sebba.
Deputado federal pelo PP e também pré-candidato em Goiânia, Sandes Júnior demonstra simpatia pela lei. Ele afirma que busca, junto ao Ministério das Cidades, comandado por Márcio Fortes, do mesmo partido, financiamento para a construção de sistema cicloviário em cidades goianas.
O ex-superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas e postulante ao Paço Municipal Gilvane Felipe (PPS) também acredita que a implantação de ciclovias amenizaria o problema do transporte caótico. "Temos de estimular o uso da bicicleta", defende. Ele é defensor de que Goiânia copie o projeto francês e disponibilize as "bicicletas públicas" na cidade. "Poderíamos começar pela Praça da Bíblia e dos Bandeirantes, por exemplo". Para ele, o meio-ambiente também é um dos maiores ganhadores com a execução da lei. A reportagem tentou contato com o pré-candidato Barbosa Neto (PSB), mas não houve retorno.
Vereador vai buscar verbas federais
O vereador Maurício Beraldo (PSDB) estuda outra medida para viabilizar a matéria: o pleito de verbas federais para financiar o projeto de construção do sistema cicloviário em Goiânia. Beraldo informa que há três frentes que financiam iniciativas desta ordem. Todos são dispostos pelo Orçamento Geral da União (OGU). Entre eles, o Programa de Infra-Estrutura para a Mobilidade Urbana e o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).
O parlamentar afirma que o superintendente municipal de Trânsito, Paulo Sanches, "está totalmente equivocado ou não conhece a realidade da cidade" ao dizer que é viável a implantação de ciclovias ou ciclofaixas somente em novas vias. "Estamos atrasados em relação a muitas metrópoles brasileiras. Nem é preciso buscar exemplo na Europa", acredita. Florianópolis (SC), Vitória (ES), Aracaju (SE), Várzea Grande (MT) e Ubatuba e Santos (SP) são cidades que já possuem o sistema, inclusive na região central.
"Nunca houve vontade política para a implantação de projeto do tipo na capital goiana. Os técnicos sempre trabalharam neste sentido, mas jamais tiveram respaldo", atesta o vereador. Beraldo afirma que, além da luta pela moradia - ele preside a Comissão de Habitação, Urbanismo e Ordenamento Urbano da Câmara de Goiânia -, a alternativa de transporte passa ser sua bandeira. Ele prepara para o fim de março uma bicicletada com apoiadores da lei municipal com trajeto da Câmara à prefeitura. "Vamos sensibilizar o prefeito", crê. (J.C.N.).