Prefeitura de Campinas planeja maior uso de bicicletas com esquema de aluguel
Maria Teresa Costa - COSMO ONLINE - 23/05/2008

A Administração municipal planeja incluir a bicicleta no sistema de transporte público, assim como já ocorre em várias cidades européias. A intenção é criar um serviço de aluguel de bicicletas, a ser prestado por empresas contratadas pela Prefeitura, que forneceriam os equipamentos para deslocamento no Centro.
O exemplo mais bem-sucedido, conhecido como Smart Bike, é o de Barcelona, criado há um ano e que já conta com 145 mil usuários.
A inspiração de Campinas, no entanto, vem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que implantou um sistema de ciclovias em parceria com a Prefeitura e trabalha em um projeto para fornecer 200 bicicletas — com meta de chegar a 2 mil unidades — a um sistema que será implantado para atender principalmente os estudantes da moradia estudantil.
Segundo o secretário de Transportes, Gerson Bittencourt, a proposta de incluir a bicicleta no transporte coletivo é parte do plano de requalificação urbana que está sendo elaborado pela Administração e que visa, em aproximadamente cinco anos, diminuir a circulação de carros no chamado quadrilátero central, formado pelas ruas Júlio de Mesquita, Orosimbo Maia, Senador Saraiva e Moraes Salles.
Para o prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT), o objetivo é diminuir a poluição sonora, do ar, e ao mesmo tempo conviver com o pedestre, o cilista e dar oportunidades de transporte coletivo e individual.
Para isso, o plano é instalar garagens subterrâneas em dois quadriláteros, onde os motoristas deixam seus carros e chegam ao Centro em vans ou até bicicletas. Um quadrilátero, o central, terá garagens subterrâneas para atender especialmente quem mora no Centro.
O outro quadrilátero, o Centro expandido, constituído pelas avenidas Norte-Sul, Barão de Itapura, Aquidabã e Andrade Neves, terá garagens com 400 vagas para atender quem vai ao Centro. A proposta é estabelecer uma integração com vans qualificadas, com ar-condicionado, que seriam subsidiadas por aqueles que na Parceria Público-Privada ganhassem a concessão mediante licitação, para construir as garagens subterrâneas ou verticais.
A intenção é que, em pontos estratégicos no Centro, existam bicicletários para o usuário poder utilizar as bicicletas, percorrendo pequenas distâncias. Existe lei, de autoria do vereador Luis Yabiku (PDT), que cria um sistema cicloviário na cidade.
Campinas, segundo Bittencourt, tem planejado a construção de ciclovias ao longo dos três novos corredores de ônibus (Ouro Verde, Campo Grande e leito do VLT). Terá também 31 quilômetros de via exclusiva para bicicletas na Avenida John Boyd Dunlop até a rodoviária. O prolongamento da Avenida Guilherme Campos, que vai ligar a Rodovia D. Pedro a PUC-Campinas e Unicamp também terá ciclovias.
O Smart Bike funciona com uso de tecnologia. Bicicletas são disponibilizadas em locais públicos. Cada uma fica trancada em um bicicletário e cada usuário, com um cartão eletrônico que o identifica, pode usar a bicicleta por tempo determinado. Depois do uso, a bicicleta pode ser deixada em qualquer bicicletário, passando novamente o cartão.
Sem o controle eletrônico, os riscos de o projeto não dar certo são muitos. Em Cambridge, no Reino Unido, em um programa tentado em 1993, todas as 300 bicicletas foram roubadas no primeiro dia de operação por falta de controle e o programa foi abandonado.
O Smart Bike está chegando ao Brasil: em São Paulo, o Metrô anunciou a criação de bicicletas de aluguel para beneficiar os usuários que, ao descerem nas estações, poderão pedalar até o destino final, na região central. O Rio de Janeiro está chamando empresas interessadas em explorar o serviço de aluguel de bicicletas.
Em Washington, onde o serviço também existe, por US$ 40 por ano (o equivalente a R$ 0,20 por dia) os moradores têm direito a usar bicicletas públicas que estão à disposição em dez pontos estratégicos.

Espanha tem 145 mil usuários
O sistema de aluguel de bicicleta de Barcelona, na Espanha, é um dos mais bem-sucedidos e conseguiu, em pouco mais de um ano de operação, atrair 145 mil usuários que utilizam 6 mil bicicletas espalhadas por 400 pontos de estacionamentos. “O sistema é um sucesso e a cada dia atrai mais usuários”, disse o diretor do Projeto Smart Bike de Barcelona, o campineiro Adolfo Heras.
O segredo do sucesso, afirmou, está no fato de a cidade ser plana, estar razoavelmente equipada com ciclovias e ter uma população preocupada com a sustentabilidade. “O espanhol tem preocupação ambiental e adotou a bicicletas como meio de transporte para curtas distâncias, entre a estação de metrô e a faculdade, ao supermercado, enfim, distâncias em que pode se locomover sem precisar do carro”, afirmou.
A cidade de Barcelona tem 25 quilômetros de ciclovias e esta semana a Prefeitura anunciou a construção de mais 40 quilômetros. O bicing, como é chamado o sistema catalão que também está sendo implantado na cidade de Saragoza com 30 estações e 300 bicicletas, é subsidiado pela Prefeitura, com a renda que vem dos parquímetros espalhados pela cidade. Os motoristas de carro pagam pela manutenção das bicicletas.
Para usar o sistema, é preciso se cadastrar pela internet ou em uma das oficinas da Delfin Integrated Marketing, que opera o sistema criado pela empresa francesa Clear Channel. O usuário pagará uma taxa equivalente a R$ 61,00 por ano. Ele recebe em casa uma carta do prefeito de Barcelona dando as boas-vindas ao sistema e o cartão eletrônico.
O usuário poderá, então, usar a bicicleta por 30 minutos, gratuitamente. Depois desse período, pagará R$ 0,78 a cada meia hora debitados automaticamente no cartão de crédito. O máximo que pode utilizar é por duas horas e depois desse tempo pagará R$ 7,74 a cada meia hora e será penalizado. Depois de três vezes ultrapassando o máximo de duas horas será tirado do sistema.
“O sistema está pensado para substituir o carro em curtas distâncias e não está destinado a passeio”, explicou Heras.
Todo o processo é informatizado, de forma que a central tem o controle de quantas bicicletas estão disponíveis em cada estação e age rapidamente para abastecer as que estejam desguarnecidas. A tecnologia permite saber quem está usando a bicicleta, há quanto tempo está com ela e onde deixou o equipamento.

Ciclistas defendem novas regras para criação do sistema
A grande preocupação dos ciclistas para circular no Centro é com a segurança, mas acreditam que se houver regras, ciclovias e fiscalização, o sistema terá tudo para dar certo. “Eu usaria bicicleta no Centro tranqüilamente se houvesse segurança”, disse a industriária Sônia Mara Pereira, adepta da bicicleta para se locomover em pequenas distâncias. O comerciário Renato da Silva Simplício tem dúvidas.
“Motorista não respeita, joga o carro em cima”, disse. Ele utiliza bicicleta como meio de transporte para ir de casa ao trabalho, porque a distância é pequena. O ajudante de cozinha Astrogildo Santos Lima até usaria bicicleta no Centro se houver segurança e boas ciclovias. “Hoje eu não me arriscaria, porque seria acidente na certa. Tem muitos motoristas que não respeitam o ciclista circulando”, afirmou.