Uso de bicicletas cresce na região do ABC
Artur Rodrigues - Diário do Grande ABC - Maio/08

A bicicleta foi idealizada por Leonardo Da Vinci há mais de 500 anos, mas parece ainda não ter sido descoberta como meio de transporte pelas administrações municipais do Grande ABC, que não investem em infra-estrutura para os ciclistas. O veículo é responsável por 7,4% dos deslocamentos em áreas urbanas no Brasil e já ultrapassa o número de motocicletas no Grande ABC e em outros pólos industrializados do país, segundo o Ministério das Cidades e a ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos).

A estatística fala de gente como o operário José Nilton, 50 anos. Todo dia ele acorda às 5h, monta em sua bicicleta e pedala para o trabalho pelas ruas de Mauá. A rotina é a mesma há três anos, quando trocou o apertado e caro transporte público pela liberdade sobre duas rodas.

Os benefícios da atividade física para a saúde pesaram pouco na decisão do operário. O grande responsável pela iniciativa foi mesmo o preço da passagem de ônibus da cidade, que ficou entre as mais caras do Estado nos últimos anos e, atualmente, custa R$ 2. “E, para piorar, a empresa não paga duas conduções”, acrescenta Nilton, que não é exceção nas ruas de cidades como Mauá, que tinha 120 mil ciclistas em 2002, estimativa feita pela administração do ex-prefeito Oswaldo Dias (PT).

“O problema é que as pessoas não escolhem a bicicleta porque querem, e sim por não ter dinheiro para pagar o ônibus”, diz o gerente do departamento de Mobilidade Humana do Ministério das Cidades, Augusto Valiengo Valeri. Ele também é coordenador do programa Bicicleta Brasil, que tem como objetivo incentivar administrações municipais a implantar projetos cicloviários nas cidades.

O projeto cairia bem no Grande ABC. Em toda a região, só há um quilômetro de ciclovia, na avenida Lauro Gomes, em Santo André. A administração andreense também é a única que confirmou ter aderido ao projeto federal, que prevê R$ 50 milhões anuais para financiamentos de redes cicloviárias. “Nosso técnicos notaram um aumento expressivo no número de ciclistas, muitos deles adotaram a bicicleta em razão do alto preço do transporte público”, afirma a secretária de Obras e Serviços Urbanos e superintendente da EPT (Empresa de Transporte Público) de Santo André, Miriam Mos Blois.

A secretária revela que em algumas vias de Santo André o número de bicicletas supera a média nacional, ultrapassando em 14% o uso de motocicletas. “É caso da avenida Mário Toledo de Camargo, a primeira em circulação de bicicletas na cidade. Depois, vem a avenida dos Estados”, revela Miriam. Segundo ela, as intenções da administração incluem a construção de uma ciclovia interligando as duas avenidas e a Coronel Alfredo Fláquer. Os cerca de 300 mil ciclistas da cidade agradecem.

Outras prefeituras têm projetos em estágio embrionário. São Bernardo pretende implantar ciclovias em “determinados pontos da cidade”, mas não especifica quais. Ribeirão Pires está na mesma situação. A prefeitura de Mauá, única na região que possui um bicicletário (área destinada ao estacionamento de bicicletas), estuda a possibilidade de “construir uma ciclovia e adequar o município a essa realidade”. “Os percursos da cidade são curtos e, por isso, muitas pessoas preferem se deslocar a pé ou de bicicleta”, disse o prefeito interino de Mauá, Diniz Lopes, por meio de nota.

Improviso – Enquanto as prefeituras estudam, projetam, desenvolvem idéias, os ciclistas vão se virando como podem. Um dos grandes problemas de quem leva a vida no pedal é a falta de estacionamentos próprios para as bicicletas. Onde não há bicicletários, improvisa-se. Só em uma pequena área com grade da Estação Rodoviária de Santo André ficam estacionadas mais de 15. A Prefeitura da cidade anuncia a construção de um bicicletário para este ano. E que seja grande, porque no bicicletário de Mauá não cabe mais nenhuma bike, apenas três anos depois de sua criação.

O local, que tem espaço para 650 bicicletas, está lotado com 800. E há evidências de que moradores de outras cidades buscam um lugarzinho seguro no bicicletário de Mauá para deixar a magrela e pegar o trem sossegado. O operador de máquinas Alex Santos, 23, pedala de Ribeirão Pires até a estação de Mauá, para não correr o risco deixar a bicicleta em um poste qualquer. “Pedalo sete quilômetros, mas pelo menos economizo R$ 200”, comemora.

Com o dinheiro que Santos deixa de gastar com ônibus, poderia comprar uma bicicleta de modelo popular por mês. E é justamente por trabalhadores de baixa renda que é formado o principal público consumidor de bicicletas do país. “Cerca de 50% das nossas vendas são de bicicletas populares”, afirma Ana Lia de Castro, diretora executiva da Abradibi (Associação Brasileira dos Fabricantes, Distribuidores e Importadores de Bicicletas, Peças e Acessórios).

No ano passado o mercado das bicicletas faturou cerca de US$ 1,2 bilhão. Se depender do Grande ABC, o lucro deve crescer ainda mais. A cada dia, novos adeptos da bicicleta saem às ruas da região. Na última quinta-feira, foi a vez do cozinheiro Alencar Cardoso, 28, estrear sua bike nova. “Só estou testando, se me adaptar, só vou trabalhar assim, em vez de gastar um dinheirão para ficar feito sardinha enlatada dentro de ônibus.”