Indaiatuba adota bicicletas como meio de transporte
18/06/08 - Rogério Verzignasse - Cosmo On-Line

O município de Indaiatuba, na Região Metropolitana de Campinas (RMC), recorre a uma velha aliada para garantir qualidade de vida. A bicicleta se firma como o veículo preferido dos moradores. Há quase 97 mil delas circulando hoje pelas ruas da cidade. É o mesmo número, por sinal, de todos os veículos automotores somados (carros, motos, ônibus e caminhões).

Ao contrário do que se possa imaginar, não se trata de mero equipamento de lazer. A bicicleta é estratégica para 40 mil pessoas, que a usam para ir de casa para o trabalho. Ela também leva para a escola cerca de 23 mil estudantes. Além de garantir transporte ágil sem consumir gasolina, garante exercício diário para quase metade dos 200 mil moradores.

Os bicicletários (armações metálicas que servem de estacionamento) se espalham pelas praças, prédios públicos e estabelecimentos comerciais. Nada menos que 47 estabelecimentos são especializados na manutenção e no comércio de peças.

Diante do quadro, a Prefeitura investe na readequação do sistema viário para garantir a segurança do ciclista. Já foram instalados, por toda a zona urbana, 10.750 metros de ciclovias e ciclofaixas. As primeiras foram abertas dentro de parques. As outras, adaptadas em avenidas que já existiam.

O melhor exemplo do sistema eficiente é a Avenida Ário Barnabé. São 2,5 mil metros no bairro Morada do Sol que servem de ligação entre o Distrito Industrial e a região central. O poder público substituiu o canteiro central por uma faixa exclusiva para bicicletas, com duas mãos de direção e sinalização impecável. A própria iluminação foi adaptada, com a redistribuição de postes e lâmpadas. "O ciclista circula com segurança pela faixa e não atrapalha o tráfego de veículos na avenida" , diz Edmilton César Poltronieri, estatístico do Departamento Municipal de Trânsito.

Desde 2004, quando começaram as obras da faixa exclusiva na Ário Barnabé, o número de acidentes despencou. A vantagem da estrutura disponível (com muretas laterais, cercas vivas e saídas planejadas para a avenida) é que acidentes fatais acabaram. Em 2008, diz Poltronieri, não houve uma morte sequer de ciclistas por ali. Antes da faixa, havia uma média anual de seis mortes de ciclistas na cidade.

Para executar os serviços, o poder público foi nitidamente pressionado por uma associação formada por ciclistas cadastrados. A entidade, que reúne donos de bicicletarias, atletas, profissionais liberais ou simples amantes das bicicletas, tem o único objetivo de exigir intervenções urbanas (leia texto nesta página).

O envolvimento da sociedade civil passou a ser inevitável. É que a opção pela bicicleta faz parte da cultura local. Há quem opte mesmo em deixar o carro na garagem e economizar. Mas há muita gente que nunca se preocupou em tirar a carteira de habilitação.

A bicicleta é meio de transporte até para engravatados. Rodolfo Louzada dos Santos, por exemplo, é funcionário do Departamento Financeiro da Universidade Luterana do Brasil, a Ubra. O jovem enche a mochila com boletos bancários e pedala pela cidade toda, de um banco a outro. Para se livrar do suor na camisa de manga longa, ele simplesmente mantém outro uniforme no escritório. "Não tem sentido sofrer no trânsito e demorar horas à procura de uma vaga para estacionar o carro" , diz. "A bicicleta faz bem para o corpo e não me deixa estressado."

O cearense Francisco Edson Nunes Silva, de 28 anos, se mudou para Indaiatuba há 12 anos. Ficou tão entusiasmado com a paixão coletiva pelas bicicletas que nunca se preocupou em comprar carro. Metalúrgico, vence no pedal os cinco quilômetros que separam a fábrica de sua casa, no bairro Oliveira Camargo.

Hábito similar tem Orlando Feitosa, de 54 anos. Para curtir a prosa com os amigos, o aposentado sai de casa de bicicleta e pedala dez minutos até o Centro, todos os dias. Encosta a velha companheira no bicicletário e se esparrama no banco da Praça Prudente de Moraes.

A paixão envolve até pessoas aparentemente frágeis. Edis Castilho Hackmann, por exemplo, que já assoprou 64 velinhas, ainda tem energia para pedalar 15 minutos na ida e mais 15 na volta, trabalhando como diarista na casa de uma parente, lá no Cecap, bairro popular localizado a mais de sete quilômetros da Cidade Nova, onde mora. Mas que ninguém sinta pena daquela "pobre senhora" .

Edis tem fôlego e animação para passear pela cidade toda de bicicleta. "Eu pedalo desde criança. Até quando era mocinha, ia de bicicleta ao Centro para passear na praça" , diz a diarista.

Campinas planeja criação de sistema cicloviário
A Prefeitura de Campinas pretende incluir a bicicleta no sistema público de transporte. O projeto de readequação urbana, anunciado pelo secretário Gerson Bittencourt, prevê a construção de ciclovias ao longo dos três novos corredores de ônibus (Campo Grande, Ouro Verde e leito do antigo VLT).

O plano ainda prevê faixas exclusivas para bicicletas ao longo de avenidas estratégicas. Existe a intenção de espalhar bicicletários por toda a região central e incentivar o cidadão a deixar o carro em casa. Até hoje, a experiência efetiva no segmento vem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que implantou, em Barão Geraldo, um sistema de ciclovias para a facilitar a locomoção dos estudantes que chegam da moradia estudantil.

SAIBA MAIS
A fama de Indaiatuba como Capital Paulista das Bicicletas vem desde os anos 80. Na época, esportistas de todo o Estado participavam, na cidade, da tradicional Prova Ciclística 1 de Maio. Outras cidades brasileiras reconhecidas como grandes pólos ciclísticos, favorecidas principalmente pela topografia plana, são Rio Claro e Joinville (SC).

Sociedade civil organizada exige intervenções urbanas
A Associação dos Ciclistas de Indaiatuba (ACI) foi fundada em janeiro de 1990 com o propósito de incentivar o uso da bicicleta e exigir, do poder público, investimentos que se revertam em segurança aos ciclistas. A entidade possui 6,2 mil cadastrados. Deles 1,3 mil são sócios contribuintes. Gente que paga mensalidades e torna viável a publicação de cartilhas e a organização de eventos.

A entidade civil, sem fins lucrativos, é presidida por Agnaldo Sérgio Hubert, um ex-atleta que, no passado, pedalou por Indaiatuba nos Jogos Regionais. Experiente no guidão, acabou convidado para comandar o setor do Departamento Municipal de Trânsito (Demutran), órgão que elabora e executa as ações públicas do segmento.

Além de repassar ao prefeito as sugestões dos associados, Hubert coordena uma série de eventos educativos sobre ciclismo defensivo em escolas e empresas da cidade. "Assim como exigimos respeito dos motoristas, temos a obrigação de nos portar bem nas avenidas" , diz.

De uma maneira geral, fala, o ciclista não se dá conta de que é proibido pedalar na contramão. Bicicleta, diz, não é só para passear no parque. O veículo exige o uso de capacete. A faixa de pedestre precisa ser respeitada. Como os carros, precisa parar no sinal vermelho.

Nas palestras, a ACI procura alertar os ciclistas sobre antigos vícios: pedalar nas calçadas, segurar na carroceria de caminhões em movimento, soltar as mãos. "Pouca gente tem o hábito, por exemplo, de usar adesivos refletivos na bicicleta, uma medida simples que evita muitos acidentes" , alerta.

Uma das empresas visitadas recentemente pelos palestrantes foi a tradicional Filtros Mann, que instalou na fachada uma armação metálica para o estacionamento de 500 bicicletas. De acordo com o engenheiro de segurança João Coli, o curso de ciclismo defensivo foi importante para garantir a segurança de centenas de funcionários que pedalam às noite, e são obrigados a circular pelo acostamento da movimentada Rodovia Santos Dumont (SP-75), a poucos metros da fábrica.

Coli informa que a orientação básica passou a integrar a Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho, a Sipat. A empresa, diz, se rendeu ao fato de que, para o funcionário, a bicicleta é tão importante quanto uma ferramenta de trabalho.

ANOTE NA AGENDA
As pessoas interessadas em conhecer a ACI, entidade civil formada por amantes do ciclismo, podem entrar em contato com Agnaldo Hubert pelo (19) 9133-0631 ou pelo e-mail acibike@bol.com.br.