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Ceará - Mobilidade Urbana
A Agenda 21 recomenda, faz bem para a saúde e para a cidade.
Mas, por que falta ciclovia nos centros urbanos?
06/08/2008 - Diário do Nordeste
Se é verdade que ninguém esquece como é andar de bicicleta, mesmo após anos sem pedalar, a prática deveria ser mais valorizada quando se pensa em mobilidade urbana e qualidade de vida. Em algumas cidades brasileiras e na maioria das capitais européias, ir ao trabalho ou percorrer pequenos percursos de bicicleta é visto como opção saudável e viável de transporte, tanto para o ciclista como para a cidade.
Contudo, em Fortaleza, a carência de vias exclusivas para bicicletas obriga órgãos públicos e os próprios ciclistas a driblarem essa carência em prol do prazer de pedalar. Em toda a capital cearense, há apenas 51,7 quilômetros de ciclovias, e a maioria é subutilizada devido à insegurança ou à falta de infra-estrutura dos espaços.
Na Avenida Washington Soares, que comporta a ciclovia mais conhecida da cidade, os buracos são comuns. Já na Avenida Beira-Mar, o poder público criou alternativa, mas não resolveu o problema. Todo dia, entre cinco e oito horas, cones restringem uma das faixas a coopistas e ciclistas. O problema é que, assim, o único espaço é disputado por quem anda, corre, pedala e utiliza patins.
Para o cozinheiro Olegário Silva Barbosa, que diariamente anda de bicicleta entre a Praia do Futuro e o Meireles, a cidade não respeita o ciclista. Mesmo assim, ele não abre mão da bicicleta ano 1983, comprada no extinto Romcy, reformada anualmente e meio de transporte para ele e seus filhos. O cozinheiro acredita que, com mais ciclovias, a população seria menos estressada. “Todo dia rodo 45 minutos. Fui duas vezes a Canindé de bicicleta. O médico diz que faz muito bem”, orgulha-se.
Na opinião da professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza (Unifor), Mônica Gondim, Olegário tem razão. “Ciclovia é alternativa de deslocamento acessível, de baixo custo, ideal para médias e curtas distâncias e permite integração da pessoa com o espaço urbano”, diz.
Segundo ela, muitas cidades têm mudado seu perfil social valorizando o serviço. Uma referência é Bogotá, capital da Colômbia. Em menos de dez anos, programa voltado para o desenho urbano conectou áreas de trabalho, de moradia e de lazer através de ciclovias.
“Isso ajudou a reduzir em 70% a criminalidade”, frisa Gondim, mestre em Transportes pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coope) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O índice prova que a prática não se restringe ao deslocamento, ponto valorizado em disciplina ministrada pela professora. Na disciplina, os alunos criam projetos de ciclovas de baixo custo. Entre os trabalhos, há a sugestão de ciclovia entre a Sabiaguaba e a Barra do Ceará, da Avenidas Bezerra de Menezes à Leste-Oeste e na Cidade dos Funcionários.
Para executar esses e outros projetos, é necessário rever a segurança da cidade. “Em cidades onde isso funciona, as ciclovias dão vida aos bairros”. Para a professora, Fortaleza não é segura para andar de bicicleta. “Isso muda com planejamento. Mas não é um projeto de rua por rua, é em rede”. No Brasil, a cidade com mais ciclovias é o Rio de Janeiro, com 200 quilômetros das vias.
EM FORTALEZA -
Planos de reforma e construção de vias
Embora Fortaleza careça de espaços exclusivos para pedalar, Estado e Prefeitura têm planos de ampliar o serviço. A cidade possui 51,7 quilômetros de ciclovias, mas a idéia é construir, até 2010, mais 30 quilômetros.
Parte dos trabalhos já começou e faz parte do Programa de Transporte de Fortaleza (Transfor). Segundo o coordenador do Programa, Daniel Lustosa, há oito obras em curso, mas não só de ciclovias. Estão sendo feitos 164 quilômetros de calçadas novas, drenagem e pavimentação em oito vias.
Em duas haverá ciclovias: 4,8 quilômetros na Avenida Sargento Hermínio e três na Humberto Monte. “As ciclovias serão interligadas aos terminais”, diz. A primeira etapa deve terminar em maio de 2010.
A idéia é que os trabalhadores que usam bicicleta como meio de transporte deixem os veículos em bicicletários que serão construídos nos terminais. “Queremos melhorar a mobilidade da cidade incentivando o transporte saudável, priorizando o transporte público, alargando vias, construindo calçadas novas e ciclovias integradas”, resume Lustosa.
A ciclovia mais conhecida de Fortaleza é a da Avenida Washington Soares. São 24,5 quilômetros de extensão. O problema é que o local está repleto de buracos, tem postes no meio do percurso e em alguns pontos está interditado devido às obras de paisagismo do canteiro central.
Restauração
Contudo, o Departamento de Edificações e Rodovias (DER) planeja, dentro de 15 dias, sanar os buracos e falhas existentes na pista das bicicletas. Conforme adianta a assessoria de imprensa do órgão, ao ser finalizada a duplicação da CE-040, até o acesso ao Iguape, a ciclovia passará a ter 31,9 quilômetros. A outra ciclovia administrada pelo Estado em Fortaleza é a da avenida Senador Carlos Jereissati, com 3 quilômetros de dimensão.
O paisagismo na Washington Soares começou na primeira quinzena de julho. O projeto, que inclui quatro poços profundos e quatro cisternas, terá irrigação automática. Haverá ainda plantas ornamentais e cerca de 40.000 metros quadrados de grama. O paisagismo levará 120 dias para ficar pronto, com um investimento total de R$ 767mil.
AMADORES -
Passeio noturno atrai em média 400 ciclistas em dois dias
Há cerca de três anos, o trânsito durante as noites de segunda e quarta-feira, em Fortaleza, está ganhando novo cenário. Em cada dia, até 200 ciclistas percorrem ruas e avenidas da cidade no passeio Bilas do Sertão, que começou com dez amigos apaixonados por bicicleta.
Mas os amigos começaram a chamar outros conhecidos e, de dois anos para cá, a prática ganhou tantos adeptos que precisou de mudanças para atender a demanda. Uma delas é que cada participante contribui com R$ 1,00 por passeio para o custeio do carro de apoio.
De acordo com o comerciante Gilberto Pereira, um dos organizadores, o que não muda é a exigência de usar capacete no percurso, que varia de 35 a 40Km. “Nos trajetos, vemos o quanto a cidade precisa mudar para as pessoas poderem andar de bicicleta”, diz, acrescentando que o grupo faz ainda passeios a Canindé e praias. O passeio sai às 20h da Rua Ana Bilhar, 1680, Varjota.
Marta Bruno
Repórter
DADOS DA AMC
• 303 bicicletas foram recolhidas pela Autarquia Municipal de Trânsito de Fortaleza (AMC) em 2006; outras 34 em 2007; três neste ano
• R$ 85,13 é o valor da multa para quem conduz bicicleta em local proibido ou de forma agressiva
• 10km de ciclovia na Capital são federais (BR-116)
• 20,1km são estaduais (Washington Soares, Avenida do Aeroporto, CE-040 e CE-060), e 21,6Km são de jurisdição municipal
PROTAGONISTAS
Ao invés de ônibus, bicicleta para ir trabalhar
Olegário Silva Barbosa, 49 -
Ando de bicicleta há 25 anos. Gosto e preciso, mas é perigoso. Muita gente não respeita. Se nas avenidas movimentadas tivesse acostamento ou ciclovia, a gente andaria mais tranqüilo. Só me acidentei uma vez, me pegaram por trás.
Caetano Silva Dourado, 44 -
Na ciclovia é seguro, mas tem buraco, poste no meio. Mas é melhor ir trabalhar de bicicleta do que pagar ônibus. E é mais rápido e saudável. Não sinto nada. Meu coração está ótimo, tenho disposição. É esse exercício que faço todo dia.