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Em Brasília, 40 mil pessoas utilizam a bicicleta para ir ao trabalho
03/09/2008 - Rimack Souto

A rotina de Paulo César Marques, de 45 anos, é parecida com a de milhares de brasilienses, levanta cedo e vai trabalhar. A diferença está no meio de transporte. Enquanto a maioria vai de carro ou de ônibus, ele utiliza a bicicleta. Paulo César mora na 206 Norte. É engenheiro de tráfego e dá aula na UnB. “Uso a bicicleta para ir ao trabalho, volto para o almoço. Depois retorno para a universidade, e à noite pego a bicicleta a caminho de casa de novo”, explica. “O uso dela não se restringe às idas e vindas da UnB. Para quase todos os lugares que vou quando tenho que resolver alguma coisa, como banco, correios e até alguns eventos no Plano Piloto, vou de bicicleta”, acrescenta.
Há cinco anos o professor utiliza a bicicleta como principal meio de transporte. Conta que é casado e como só tem um carro precisa deixá-lo com a mulher. Além da necessidade, acha mais econômico. Afirma que é um ótimo meio de transporte, e brinca: “Fazendo isso não preciso de academia”. Sua maior preocupação é a falta de respeito no trânsito. Segundo ele, o uso desse meio de transporte não é recomendado em qualquer situação, como nas vias de muito movimento ou de alta velocidade.
Outro que adotou o “camelo” ou a “magrela’, como é chamada a bicicleta, é o produtor musical, Djalma Maia, de 34 anos. Morador do Guará ll, a paixão por bicicleta vem de família. “A gente morava na Asa Norte. Meu pai trabalhava na Esplanada. Ele ia e voltava de bicicleta”, lembra. Para Djalma, conhecido como “Phul”, a bicicleta é mais prática, mas esses não são os únicos motivos que o levaram a escolher a bicicleta como meio de transporte. A saúde e a questão ambiental também influenciaram sua escolha. “Hoje eu tenho filhos, depois vou ter netos e daqui a pouco não vou ter planeta”.
Phul conta que percorre em média 400 km por semana levando as encomendas (CDs) para os clientes. Além disso, realiza os serviços bancários e de correios com a bicicleta. O carro é utilizado somente em situações com excesso de bagagem, no caso de transportar instrumentos musicais, por exemplo, e dias de chuva. Mas revela: “Isso não me deixa muito feliz”. O produtor diz que aproveita as pedaladas para treinar para competições de “mountain bike”.
Sua preocupação também está relacionada a violência no trânsito. “Hoje eu consigo ir até o Lago Norte ver minhas filhas, mas eu não sei se eu vou conseguir voltar para casa para ver a minha mãe, ou se amanhã eu vou conseguir fazer as minhas entregas. Se morrerem cem ciclistas no trânsito no ano, ninguém vai fazer nada, isso não é importante para nenhum governante, mas se morrerem cem pessoas num acidente de avião, aí a conversa muda”, lamenta.
A preocupação do professor e do produtor faz sentido. Além dos roubos de bicicletas, que não aparecem nas estatísticas, este ano 19 ciclistas morreram nas vias do DF. No ano passado foram 60 mortes. Em 2005 o número de vítimas foi maior ainda, 66, segundo dados do Detran-DF. Para que isso mude, o departamento de trânsito está cobrando dos candidatos à primeira habilitação mais conhecimento sobre os cuidados que o motorista deve ter com o ciclista quando dirigir. Por semana, nas ruas, o número ciclistas chega a 400 mil, entre trabalhadores, esportistas e pessoas que usam a bicicleta para o lazer, segundo o presidente da organização não-governamental (ONG) Rodas da Paz, Maurício Gonçalves.
Um projeto do GDF prevê a construção de uma ciclovia com 600 km de extensão em todo o Distrito Federal. Devem ser entregues até o fim deste mês 12,5 km, partido do Lago Norte, passando pelo Varjão e seguindo até as proximidades do Paranoá. De acordo com Mônica Velloso, gerente de projetos da ciclovia, outras três etapas devem ficar prontas até o fim do ano: 7,5 km em Samambaia, 6,5 km no Itapoá e 12,5 km em São Sebastião.
Para o presidente do Rodas da Paz, o principal beneficiário vai ser para o trabalhador, que nem sempre tem dinheiro para o ônibus, e usa a bicicleta como meio de transporte. Ele conta que hoje existem cerca de 40 mil pessoas por dia utilizando a bicicleta para ir trabalhar. Essa economia pode fazer muita diferença no fim do mês. Segundo um artigo publicado pela Folha de São Paulo em 16 de setembro, o brasileiro gasta mais com carro do que com educação. O gasto com educação é de 4,9% do orçamento, enquanto que com a aquisição de automóvel, combustível e manutenção representa 10,8%.
Outro ponto levado em conta por quem tem a bicicleta com meio de transporte é a preservação do meio ambiente. Atualmente são 1 milhão de veículos no DF. É comum ver nos horários de pico muitos carros com apenas o motorista dentro. Pelo artigo da Folha de S. Paulo, por ano, um carro comum emite cinco toneladas de dióxido de carbono. Isso significa entre 60% a 80% da poluição atmosférica dos centros urbanos. O transporte individual aumenta em cem vezes a taxa de emissão de CO2 por quilômetro/passageiro transportado. Além disso, os veículos são responsáveis por 80% de um outro tipo de poluição, a sonora.