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Maníacos por magrelas
Um lugar onde a bicicleta é tudo: meio de transporte, cultura, diversão e expressão lúdica
12/12/08 - Por Tatiana Achcar* Revista Vida Simples Especial Vá de Bicicleta

Bicicleta é o meu meio de transporte em São Paulo, mas quem pedala sabe que não é fácil a vida de ciclista na metrópole. Por isso, viajei em junho para participar da oitava conferência Toward Car Free Cities, em Portland, no estado americano do Oregon. Queria ver o que o país mais motorizado do mundo teria a mostrar sobre a vida sem carros.
E... surpresa! Em poucos dias na cidade mais verde dos Estados Unidos percebi
que Portland é, de fato, um exemplo da virada da cultura do carro para a cultura
da bicicleta. Ocupa o primeiro lugar no ranking das cidades americanas amigas da bicicleta e o segundo melhor destino cicloturístico do mundo. São 430 quilômetros de ciclofaixas e trilhas pavimentadas e sinalizadas; estacionamentos públicos que são verdadeiras obras de arte, sensores nos cruzamentos que abrem o semáforo para o ciclista e 400 placas que indicam rotas agradáveis, seguras e efi cientes para pedalar. Só vendo ao vivo para acreditar.
A boa infra-estrutura incentiva as pessoas a circular pelas ruas com a certeza de que vão encontrar um ambiente respeitoso com os ciclistas. E os cidadãos aproveitam a bike pra valer: pais levam os filhos à escola em carretas confortáveis, idosos passeiam sem medo do ridículo e muita gente agilizada, inclusive a polícia, usa a bicicleta no serviço ou vai trabalhar no pedal – mesmo na habitual chuva! Para quem é ciclista, uma vez por mês é oferecido café-da-manhã nas duas principais pontes da cidade como incentivo e agradecimento pelo uso da bike. Mas, na verdade, o que dá vida a essa bem pensada estrutura é a vontade e a iniciativa das pessoas de tornar o espaço público agradável e acolhedor. Portland é perfeito para quem busca uma vida mais saudável e coletiva: jardins caprichados, bancos sombreados por árvores frutíferas e murais coloridos tornam a pedalada amigável e prazerosa.
A cultura de divertir-se e expressar-se nas ruas tem seu ápice no Pedalpalooza,um festival anual que celebra a bicicleta em todos os cantos da cidade. A sexta edição teve quase 220 pedaladas organizadas pelos próprios moradores: para conhecer parques e praças, celebrar o solstício, beber cerveja nos bares, conhecer feiras orgânicas, exigir mais respeito dos motoristas e aprender regras de segurança, ler poesias, admirar os grafites e assim vai. Ou seja, uma oportunidade de ouro para qualquer pessoa viver a cultura da bicicleta onde ela é transporte, diversão e expressão lúdica ao mesmo tempo.
No resto do ano, as magrelas seguem espalhando alegria e segurança pela cidade, rigorosamente equipadas com farol dianteiro, pisca-pisca, buzinas e ainda penduricalhos e adesivos com frases do tipo “pedalar é sexy”, “eu não incentivo a guerra por petróleo”, “ponha diversão entre suas pernas”. Contra o senso comum no Brasil, a “bici” não é coisa de criança ou de quem não tem dinheiro para comprar carro. Exceto no dominical Zoobomb, quando a gente vê um bando de marmanjos descendo alucinadamente a maior montanha da cidade em minibicicletas, só pelo prazer de pedalar.
*TATIANA ACHCAR, jornalista aficionada por bicicletas, pedala para mexer o corpo e poupar o planeta. Foi parar na Califórnia, onde está aprendendo a pedalar de saia – sem perder a elegância.